Trail Running

De regresso à felicidade

23 julho 2021
4 min
Passado quase um ano desde a última prova, o regresso aos trilhos aconteceu finalmente no Trail Porto da Cruz Natura, uma competição muito especial, tanto pelas pessoas que a fazem como pelo local onde decorre, numa das mais bonitas freguesias da ilha da Madeira.
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Desde há muito que a Freguesia de Porto da Cruz, no concelho de Machico, se tornou numa referência para os praticantes de trail em Portugal. Pela prova aí realizada já há oito edições, o Trail Porto da Cruz Natura, que este ano serviu também para decidir o título nacional de Trail Ultra, conquistado por Dário Moitoso nos homens e Inês João nas mulheres, mas também pela envolvência, com caraterísticas únicas para a prática desta modalidade, como se comprova pela elevação do concelho do Machico a “Capital do Trail da Ilha da Madeira”.

A ocasião perfeita, portanto, para um regresso às provas, dez meses depois da última participação, também numa ilha, mas neste caso na Terceira, no Azores Bravos Trail. Ao contrário dessa ocasião, desta vez optei pela prova mais curta, ou melhor, pelo trail longo, de 25 km, o suficiente para me divertir, mas também sofrer um bocadinho, nos exigentes trilhos de Porto da Cruz, uma freguesia cuja aposta nesta modalidade não se fica pela organização da prova, como se comprova pelos três circuitos de treino (devidamente sinalizados), de 9, 19 e 35 km, existentes à volta da localidade, onde também é anualmente realizado um trail camp, sempre no início de janeiro e também ele bastante concorrido.

“O trail e o surf colocaram a nossa freguesia no mapa turístico da Madeira e tornaram-nos numa referência a nível nacional e não só”, reconhece o presidente da junta, Duarte Fernandes, um dos responsáveis pela primeira hora pela organização da prova, tal como o director da mesma, Hugo Marques.

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O ambiente vivido nesse fim-de-semana era disso prova, com atletas vindos de todo o país a encherem as ruas e esplanadas da pequena localidade, sempre com muitos reencontros de velhos amigos e conhecidos dos trilhos, porque a falta de provas, devido à pandemia, não se sente apenas a nível físico. Mas adiante, que no dia seguinte à prova, embalados por uma poncha, haveria muito tempo para colocar a conversa em dia.

Da prova principal, de 50 km, já quase tudo foi dito, pelo que seguimos diretamente para a de 25, cuja partida, às seis da manhã, foi vista desde a janela do quarto e a chegada dos primeiros ocorreu quando o trail longo, iniciado às 9h30, ainda ia a meio.

A partida por boxes, faseada devido à pandemia, ainda se estranha, mas é um mal menor, quando comparado com a quase total ausência de provas para os atletas ditos do pelotão, como aconteceu no ano passado. E a alegria (é mesmo essa a palavra) deste regresso a um antigo normal, embora ainda com algumas reminiscências do tal novo que se quer rapidamente esquecido, valeu cada minuto daqueles primeiros quilómetros sempre a subir e com muitos degraus à mistura, como é tradição na Madeira. É quase como se nos fosse dado a entender que esta fase inicial da prova serve para separar os homens e as mulheres das crianças e houve momentos, confesso, a fazer-nos sentir como bebés a gatinhar. Mas enfim, mesmo com poucos treinos e sem provas, o corpo tem memória e depressa voltámos ao tal velho normal, em que o esforço e algum sofrimento são também sinónimos de muita diversão, aliada a uma paisagem única, que atinge o seu auge, quando, ao longe, se vislumbra a imponente Penha da Águia, anunciando a descida para Porto da Cruz, mais de três horas depois da partida.

O resto é a história habitual de provas como esta, que permanecem para sempre na memória e no coração pelas paisagens, pelos trilhos ou pelo ambiente, mas também e especialmente, pelo entusiasmo das pessoas reais que as organizam.

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