Em entrevista ao Jornal Record, o campeão do triplo salto confessou que sente que o atletismo não é apoiado em Portugal e que está em negociações com o Benfica para a sua saída.

Chegou ao Benfica em 2017, ano em que também se naturalizou cidadão português, e desde então Pedro Pablo Pichardo já ganhou tudo o que havia para ganhar. O atleta de triplo salto foi campeão europeu, campeão mundial e até campeão olímpico com as cores de Portugal. 

Apesar dos bons resultados, numa entrevista recente ao jornal Record, Pichardo revelou que não se sente valorizado e que o caminho talvez não passe pelo Benfica, nem pelo nosso país.

"Estamos a ver se fico no Benfica ou não, estou a tentar falar com eles para sair do clube da melhor maneira. Porque no nosso país, Portugal, não valorizamos muito o atletismo. Sou pessoa bastante humilde, mas gosto que valorizem o que faço, mesmo que não seja um jogador de futebol. Estou com a Puma desde miúdo. Com o passar do tempo fui conquistando resultados, que hoje a Puma valoriza", começou por dizer o atleta.

"Tenho agora a oportunidade de explicar, para que os adeptos do clube e o povo português saibam o motivo por que é que quero sair. Já conquistei quase tudo, sou grato pelo que o Benfica fez por mim, mas sinto que não estou a ser valorizado", referiu.

O conforto com Ana Oliveira, diretora da modalidades do Benfica, também foi um assunto abordado:

"O Benfica tem que se posicionar a favor da diretora é lógico. Expliquei ao vice-presidente e ao presidente as minhas razões. Quem tem 15 anos de clube é a Ana Oliveira eu cheguei ontem. Mas ela teve muitos problemas com muitos atletas, não foi só comigo. Mas como somos do atletismo, para o clube é indiferente. Se ela estivesse ligada ao futebol, já não estaria no clube. Ou seja, como somos de outra modalidade, ‘vocês entendam-se’. Para o clube, estes problemas não são importantes. (…)
Todas as decisões no atletismo têm de passar pela Ana Oliveira, ela fez o que entende… Por exemplo, o meu pai é licenciado em desporto, mas treina o triplo. Não treina um atleta de barreiras ou do peso. No futebol, há também um treinador para os guarda-redes. Ela [Ana Oliveira] treina todos os atletas e repito se esta situação acontecesse no futebol já estaria resolvida. Há muitas outras coisas, podíamos estar aqui a falar o dia todo para perceberem que quando deixar o clube não digam que o Pichardo é ingrato. Há coisas que se passaram que ela nunca falou."

"Não estou arrependido de ter chegado aqui, estou é desiludido com o país por não dar valor a quem é devido. Nós atletas das modalidades damos muita visibilidade a Portugal lá fora, regressamos ao país com a camisola de Portugal, mas chegamos aqui é tudo indiferente. Claro que na rua reconhecem-nos e fico muito contente de tirar fotos… só fico chateado [risos] quando me dizem que faço salto em comprimento… Não nasci cá, mas por exemplo o Fernando Pimenta nasceu. No começo até pensava que era uma questão só comigo ‘ah é cubano’, mas depois comecei a ver que com o Pimenta é igual. Quero ir para outro sítio para continuar a minha vida, tenho que fazer alguma coisa pela minha família. Não posso voltar a Cuba. Tenho três filhas pequenas, que precisam de ir à escola, precisam de seguro de saúde e outras coisas. Se não fizer nada agora, no futuro elas é que vão sofrer. Eu não quero ficar chateado com ninguém e não quer que também fiquem chateado comigo. Não quero que o Benfica e os portugueses me vejam como um ingrato e que digam ‘ah, chegou aqui, já tem os documentos portugueses vai para outro país. Nada disso. Só quero que percebam as minhas razões", vincou Pichardo ao Record.

Relembre-se que Pedro Pablo Pichardo foi capa da Pro Runners #14 e pode ler ou reler a sua história aqui: "Pedro Pablo Pichardo: o salto do Campeão Olímpico".